Como Moçambique encontrou o caminho da paz após décadas de conflito — um marco na história africana que inspirou o mundo e transformou um país marcado pela guerra num exemplo de reconciliação.
O momento histórico: a assinatura do Acordo Geral de Paz em Roma, Itália, a 4 de outubro de 1992. Foto: Arquivo Histórico de Moçambique.
🕊️ Era um dia de sol em Roma quando, na Sala dos Retratos do Palácio Madama, sede do Senado italiano, dois homens selaram com um aperto de mãos o destino de uma nação. Do lado esquerdo, Joaquim Alberto Chissano, Presidente da República de Moçambique. Do lado direito, Afonso Marceta Macacho Dhlakama, líder da Renamo. Ao centro, o mediador italiano Andrea Riccardi, representante da Comunidade de Santo Egídio. O ano era 1992. O dia, 4 de outubro. E Moçambique, depois de mais de uma década de guerra civil devastadora, escolhia finalmente o caminho da paz.
O Acordo Geral de Paz, assinado na capital italiana, pôs fim a 16 anos de conflito armado que haviam dilacerado o país desde a sua independência, em 1975. Estima-se que a guerra tenha causado cerca de um milhão de mortos, mais de quatro milhões de deslocados internos e refugiados, e deixado uma infraestrutura em ruínas. Mas naquele outono europeu, a esperança renascia. Moçambique, que parecia destinado a afundar-se num abismo sem fim, tornou-se um símbolo global de reconciliação.
Para compreender a magnitude do Acordo de Roma, é necessário recuar aos anos que precederam a independência. Moçambique tornou-se independente de Portugal a 25 de junho de 1975, após uma luta armada de dez anos liderada pela FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). No entanto, a paz durou pouco. Em 1976, surgiu a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), um movimento armado apoiado inicialmente pela Rodésia (atual Zimbabué) e depois pela África do Sul do apartheid, que desencadeou uma guerra civil que assolou o país durante 16 anos.
As décadas de 1980 foram particularmente cruéis. O conflito alastrou-se por todo o território, com ataques a infraestruturas económicas, escolas, hospitais e aldeias. Milhões de pessoas fugiram para os países vizinhos ou para os centros urbanos. A fome e as doenças dizimaram populações inteiras. Moçambique tornou-se um dos países mais pobres e devastados do mundo.
As primeiras tentativas de negociação foram infrutíferas. Foi apenas no final dos anos 1980, com as transformações geopolíticas na região — o fim do apartheid na África do Sul e a retirada do apoio externo à Renamo — que as condições para a paz se tornaram viáveis. A Comunidade de Santo Egídio, uma organização católica italiana com experiência em mediação de conflitos, desempenhou um papel crucial ao aproximar as partes.
O papel da Comunidade de Santo Egídio foi fundamental. O italiano Andrea Riccardi, fundador da comunidade, e o padre Matteo Zuppi (futuro cardeal) conduziram dezenas de rondas de negociações, muitas vezes em sigilo absoluto. Em Roma, os representantes das duas partes — Armando Guebuza (FRELIMO) e Raúl Domingos (RENAMO) — debateram ponto por ponto até alcançarem o consenso.
“Foram meses de desconfiança, de olhares carregados de desconfiança. Mas no fundo, ambos sabíamos que o povo moçambicano não aguentava mais um dia de guerra. Quando finalmente apertámos as mãos, senti que um peso imenso saía das minhas costas. A paz era possível.”
“Aprendemos que nenhum moçambicano pode ser excluído da construção do país. A paz não foi um favor, foi uma necessidade. E um compromisso que assumimos com as gerações futuras.”
O Acordo Geral de Paz não se limitou a decretar o fim das hostilidades. Foi um documento abrangente que estabeleceu as bases para a democratização e reconstrução do país. Os seus principais pilares foram:
O sucesso do processo de paz moçambicano tornou-se um caso de estudo em escolas de diplomacia e centros de resolução de conflitos em todo o mundo. Moçambique demonstrou que, mesmo após um conflito extremamente violento, é possível construir uma paz sustentável quando há vontade política e apoio internacional adequado.
Nas décadas seguintes, o país conheceu períodos de estabilidade e crescimento económico, embora tenha enfrentado novos desafios, incluindo um ressurgimento esporádico de tensões armadas (2013-2019). Contudo, o espírito de Roma continuou a ser invocado como um farol. Em 2019, um novo acordo de paz foi assinado entre o Presidente Filipe Nyusi e o líder da RENAMO, Ossufo Momade, reafirmando o compromisso com o diálogo e a desarmamento definitivo.
O Acordo de Roma ensinou ao mundo que a reconciliação exige paciência, que o diálogo é sempre preferível às armas, e que a construção de uma nação é um processo contínuo, feito de avanços e recuos, mas sempre guiado pela esperança.
“A paz não é apenas a ausência de guerra. É a presença da justiça, da oportunidade, da dignidade para todos. O Acordo de Roma deu-nos a oportunidade de começar. Cabe a cada moçambicano, todos os dias, continuar a construir essa paz.”
— Graça Machel, ativista e ex-ministra da Educação
Em Moçambique, o 4 de outubro é celebrado como o Dia da Paz e Reconciliação Nacional. A data é marcada por cerimónias oficiais, mas também por momentos de reflexão nas escolas, igrejas e comunidades. É um dia para lembrar as vítimas da guerra, homenagear os que trabalharam pela paz e renovar o compromisso de construir um país unido, próspero e inclusivo.
Hoje, mais de três décadas depois, Moçambique olha para o Acordo de Roma como um marco fundador da sua democracia. A paz conquistada a 4 de outubro de 1992 continua a ser o maior património do país — um legado que deve ser preservado e aprofundado pelas novas gerações.
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